terça-feira, 28 de abril de 2009

O muro

A OMS sempre, comprovadamente, usou vacinas para cumprir lentamente e sub-repticiamente seu propósito de reduzir a população mundial, dentro de princípios eugênicos. (Lido no Orkut)

O peso dessa enorme desconfiança
pode pôr uma sombra no teu dia,
pode estragar teu ar, tua alegria
e o mais que por um fio se balança.

Que tal mudar de susto e de agonia
e ir desfazendo aos poucos essa trança,
já que viver de medo também cansa
e a brasa da apreensão, de velha, esfria?

Sugiro-te a ginástica, o crochê,
a cozinha ou qualquer ocupação,
mas menos ênfase na dedução,

menos vapor na máquina da mente –
e que não fiques tão constantemente
a trombar contra o muro do porquê.

A pergunta

para orkuteiros

Termina inviabilizando a construção de novas comunidades sobre *** o fato de já existirem tantas outras, principalmente contando com praticamente os mesmos participantes? (Lido no Orkut)

O que as inviabiliza, certamente,
não decorre dos números, nem vem
do fato de que cada uma tem
seu limite de apelo para a gente;

mas talvez de outra instância, mais urgente,
que quem soma e computa não vê bem,
que não entra nas contas de ninguém
e entanto espreita lá, soturnamente.

Como devo chamá-la (se é que devo),
sem trair seu mistério e seu relevo,
na dança alegre das suposições?

Eis que sobre ela jorra uma luz nova:
mais sutil que argumentos e razões,
da qual tua pergunta é minha prova.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Por quê?

para orkuteiros

Lá no Orkut aprendi que ser fumante
é menos perigoso que ser gay
e que a vacina é coisa horripilante,
pior até que a doença (constatei).

Também vi que, na roda delirante
deste mundo em que pasmo e nada sei,
não existe questão mais importante
que derrubar o presidente e a lei.

Agora vos pergunto – a vós que sois
amigos de Guevara, por meu mal,
e elogiais Fidel a três por dois:

se o cigarro, conforme se sustenta
aqui por esta banda, é tão mortal,
por que é que eu já passei dos meus noventa?

sábado, 25 de abril de 2009

Culpa

O despreparo intelectual dos conservadores é, talvez, nosso maior inimigo. Assumo minha parte na culpa. (Lido no Orkut)

Assumir uma culpa é bem saudável,
mesmo que em parte, apenas, a admitamos:
pois, se é justa esta guerra que travamos
num coletivo esforço, impermutável

(sendo custoso o prêmio e desejável,
posto ao final da estrada em que nos vamos),
é numa espécie de onda que vogamos,
por sobre a correnteza sempre instável.

Porém é necessário compreender
a extensão dessa culpa e no que incide:
se no mal ensinar, se no aprender –

se no ignorar, no ensino, o que se ensina,
e ir tateando às cegas na neblina,
numa ansiedade que não se decide.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A crítica

Platão é um grande crítico da democracia, mas nem sua crítica foi tão avassaladora como a de Hitler. (Lido no Orkut)

O grego teve lá suas razões
e o austríaco também; mas é de crer
que no fundo inaudível do escrever
seguiram por opostas direções.

O grego nos deixou as mil lições
de Sócrates, difíceis de esquecer;
e o austríaco outra coisa nos fez ver
com seus navios, tanques e aviões.

De um a crítica, arguta, nos conduz
a uma espécie de sóbria encruzilhada
onde haver treva encontra sua luz.

O outro, com suas máquinas, tentou,
lançando sombra sobre toda a estrada,
dar cabo do que tanto criticou.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Trapo

Há coisas bem piores que um cretino
neste mundo em que Deus nos faz penar.
Melhor, portanto, é ver e não pensar,
deixar correr o barco, sem destino.

Queres um porto? Queres um lugar?
Sê educado sempre, e sempre fino.
Supõe que assim serás mais cristalino,
pouco importando o que andes a buscar.

Deixa em casa teu mapa, teu tesouro,
tua flauta, teu verso, teu gemido,
e entra na rua como num castigo.

Toma na vida uns ares de desdouro. –
E quem te vir assim, tão despossuído,
há de pensar que és nada, algum mendigo.

A parte e o todo

O mundo, na minha opinião, acabou. E o Brasil acabou primeiro. (Lido no Orkut)

Se se acaba este mundo, é sem suspense
que com ele o Brasil também se acabe:
até porque, conforme a gente sabe,
uma coisa à outra coisa se pertence.

Mas, para a hipótese de que se pense
que, acabando-se o mundo, não se acabe
o Brasil, que de todo nele cabe
(ideia que não sei como condense) –

talvez se deva crer que, de algum modo,
a parte, sendo parte desse todo,
possa, depois do todo, ainda durar

(suspeita que o seu tanto nos abala):
como o Brasil, do qual aqui se fala –
não neste mundo, mas noutro lugar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Versos íntimos

d'après Augusto dos Anjos

Vês! Que coisa engraçada, formidável,
salta às vezes do fundo da quimera:
um babuíno, uma hiena, uma pantera,
que vem ser tua amiga inseparável!

Tem paciência, porém, e cumpre a espera:
quem aqui, nesta terra miserável,
se precipita e salta, reprovável
(numa urgência esquisita de ser fera),

queima qual vela ou brasa de cigarro!
Assim, melhor, amigo, do que o escarro
e do que a mão que esmurra e que apedreja,

é cultivar à sombra a tua chaga:
longe dessa patorra que te afaga
e da horrenda bocarra que te beija!

O fingimento

Esses caras usam as palavras para fingir que falam de alguma coisa e carregam elas de sentido. (Lido no Orkut)

Confesso que não tinha reparado
que isso pudesse ser algum defeito.
Certamente é preciso ler direito,
para entender que o pote está rachado,

que o fundo do dizer, bem arranjado,
cheio assim de atavio e de confeito,
pelo crivo não passa mais estreito
de algum ouvido ou olho preparado.

No entanto resta ver se, retirada
a veste com que finge o fingimento,
se há de subir à coisa desejada:

se, expurgado o pecado do sentido,
é possível chegar ao preterido
material de que é feito o pensamento.

domingo, 19 de abril de 2009

Rigorosamente nada

Eu sei o que são "eventos independentes" em estatística [...]: e justamente declaro solenemente que o conceito de "evento independente" é um conceito que não se refere a rigorosamente nada no universo real. Digo que qualquer evento representa uma soma de interferências e que, a propósito e por consequência, "randômico" também é um conceito ilógico. (Lido no Orkut)

Se o randômico evento não existe,
por vazio, por nulo, por ilógico,
conforme do ente ao ente aqui se insiste –
pelo bem do equilíbrio psicológico

(que do próprio direito não desiste),
não seria igualmente pedagógico,
como quem joga aos pássaros o alpiste,
crer que sem ele o mundo, escuro e triste,

perde também o brilho desse dito,
que mete o dente, assim, no próprio rabo?
Ai! que não me acometa um faniquito:

se não existe o evento independente,
não por capricho, mas premente e brabo
é que o declaro aqui solenemente!

sábado, 18 de abril de 2009

Comunicação

Esses remédios são horríveis por travarem a comunicação mediante o Espírito Santo. Quero distância dessas drogas. (Lido no Orkut)

Quando o Espírito Santo nos ajuda,
muita coisa na vida se resolve:
nossa ansiedade em brisa se dissolve,
e não há meta que nos desiluda.

Porém, se em vez da velha inspiração
que tal fascínio dava aos nossos pais
(que nisso viam forças naturais
movendo a mente em doida rotação),

nele acharmos correio ou telefone
(ou coisa parecida), é bem provável
que ele perca o proveito ou não funcione.

(E, se a isso se acrescenta o entorpecente,
o fluxo há de tornar-se mais instável,
podendo, então, travar completamente.)

O voo

Eu já levitei – é absolutamente estranho e não dependeu de eu querer ou não. Andei por um espaço de cerca de cem metros sem que meus pés tocassem o chão. [...] PS: não faço uso de nenhuma substância alteradora de consciência, sou cara-limpa e estava absolutamente sóbria, é claro. (Lido no Orkut)

Levitaste, madame, certamente,
e do que dizes não duvidarei.
Há mistérios sutis em nossa mente,
coisas do arco-da-velha, que nem sei.

Talvez tenhas subido até mais alto,
no teu novo exercício aviculário,
ultrapassando a altura do teu salto,
num gesto de leveza extraordinário.

Porém o aspecto que ainda me preocupa
não é saber se o voo teu, risonho,
surge do ardor que o cérebro te ocupa –

mas se, a revoar no céu, qual passarinho,
não chegaste a apanhar pelo caminho
algo que não provém de droga ou sonho.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Favor

Nenhuma vítima de homicídio pode proclamar que o desejo de matar está totalmente ausente no seu coração. (Olavo de Carvalho)

Não poderão, por certo, proclamar,
a não ser na outra vida (caso exista),
muito embora haja quem, sem prova, insista
em que eles podem – póstumos – falar.

Ou, talvez, por seguir melhor a pista,
seja questão aqui de declarar,
nem para tal suspeita confirmar,
mas por motivo de ordem, socorrista,

num pessimismo que hoje se compreende,
que vítimas são todos, de antemão,
de assassínios virtuais – coisa que rende

o raciocínio esdrúxulo: supor
que não se deva aos mortos o favor
de não dizer o que eles não dirão.