para orkuteiros
Porque diante do que brilha
não há ambição que sossegue,
que se mantenha na trilha –
entre odiadores e amantes
não há diamante que chegue.
Porque, no incêndio do dia,
sempre há quem tudo sonegue,
embora acenda a porfia,
entre odiadores e amantes
nunca há diamante que chegue.
Porque, no escuro em que vêm,
um, que ao seu ouro se apegue,
quer, enquanto o outro retém,
entre odiadores e amantes
nunca há diamante que chegue.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
5. Marchinha do embusteiro
Por trás da máscara o que sou?
Pierrô
Pierrô
Pierrô
Vou te abraçar, vou te beijar
vou te levar pra outro lugar
Vou te deixar lelé da cuca
vou te jogar numa arapuca
Por trás da máscara o que sou?
Pierrô
Pierrô
Pierrô
Pierrô
Pierrô
Pierrô
Vou te abraçar, vou te beijar
vou te levar pra outro lugar
Vou te deixar lelé da cuca
vou te jogar numa arapuca
Por trás da máscara o que sou?
Pierrô
Pierrô
Pierrô
4. Canção de ninar do alcoviteiro
Dorme, meu filhinho,
que amanhã terás
mais um pouquinho.
Para que a pressa,
se o futuro traz
tanta promessa?
Contém tua sede,
que logo encherás
a tua rede.
Se ficas bem quieto,
apanhas por trás
o teu inseto.
Com calma e surpresa
nunca perderás
a tua presa.
Dorme, meu amado,
que amanhã terás
o teu bocado.
que amanhã terás
mais um pouquinho.
Para que a pressa,
se o futuro traz
tanta promessa?
Contém tua sede,
que logo encherás
a tua rede.
Se ficas bem quieto,
apanhas por trás
o teu inseto.
Com calma e surpresa
nunca perderás
a tua presa.
Dorme, meu amado,
que amanhã terás
o teu bocado.
3. Tango do aborrecido
Orangotango
aborrecido –
não quer um tango,
não quer conselho.
Tapa um ouvido,
dobra um joelho –
vai dormir cedo.
Orangotango
aborrecido... –
Quase um calango
que o sol deixou
entorpecido.
Ensaia um vôo,
mas cai no olvido.
Falta-lhe o rango?
Pegou prurido?
Tangolomango?
Ou é preguiça?
Ninguém o apressa,
ninguém o atiça –
esse atrevido!
Orangotango,
desiludido.
Parece um frango
subindo a escada...
Mas é só pose:
no fim da estrada
não vê sentido.
aborrecido –
não quer um tango,
não quer conselho.
Tapa um ouvido,
dobra um joelho –
vai dormir cedo.
Orangotango
aborrecido... –
Quase um calango
que o sol deixou
entorpecido.
Ensaia um vôo,
mas cai no olvido.
Falta-lhe o rango?
Pegou prurido?
Tangolomango?
Ou é preguiça?
Ninguém o apressa,
ninguém o atiça –
esse atrevido!
Orangotango,
desiludido.
Parece um frango
subindo a escada...
Mas é só pose:
no fim da estrada
não vê sentido.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
2. Valsa do ressentido
Quando estou triste,
não quero salsa,
não quero tuíste,
não quero samba,
não quero frevo,
não quero blues,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
Quando estou bravo,
meu ódio se alça
ao som do cravo,
ao som do piano.
Não pede xote,
não pede jazz,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
Se algum amuo
vem e me calça,
não quero duo,
não quero trio,
não quero rumba,
não quero rock,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
Se o meu despeito,
como uma alça,
me estira o peito,
não quero fado,
não quero mambo,
não quero polca,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
não quero salsa,
não quero tuíste,
não quero samba,
não quero frevo,
não quero blues,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
Quando estou bravo,
meu ódio se alça
ao som do cravo,
ao som do piano.
Não pede xote,
não pede jazz,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
Se algum amuo
vem e me calça,
não quero duo,
não quero trio,
não quero rumba,
não quero rock,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
Se o meu despeito,
como uma alça,
me estira o peito,
não quero fado,
não quero mambo,
não quero polca,
mas só valsa,
só valsa,
só valsa.
1. Canção do orkuteiro carente
Já fui reaça, mamãe,
fui centro, fui direitista,
fui até “foralulista”,
ao longo do meu caminho. –
Mas agora, destronado,
venho pedir, transtornado,
que me dês, para que eu durma,
o calor do teu colinho.
Fui esquerdista, sem medo,
e sem medir sacrifício;
fiz da militância um vício,
vesti camisa e boné.
Mas agora, em que só choro,
outra coisa não imploro
senão que, calma, me faças
um afago e um cafuné.
Decepcionei-me com o mundo
quando, na reviravolta,
tive de dar meia-volta,
entre sopapos e chutes.
Hoje, humilhado e ofendido,
venho rogar, compungido,
debruçando-me em teu colo,
que também não me refutes.
Toca aqui no meu cabelo,
faze que eu durma mais cedo,
depois que acaba o brinquedo,
depois que a luz se apagar. –
E, quando eu estiver carente,
como se eu fosse um doente
e tu fosses a enfermeira,
canta para eu não chorar.
fui centro, fui direitista,
fui até “foralulista”,
ao longo do meu caminho. –
Mas agora, destronado,
venho pedir, transtornado,
que me dês, para que eu durma,
o calor do teu colinho.
Fui esquerdista, sem medo,
e sem medir sacrifício;
fiz da militância um vício,
vesti camisa e boné.
Mas agora, em que só choro,
outra coisa não imploro
senão que, calma, me faças
um afago e um cafuné.
Decepcionei-me com o mundo
quando, na reviravolta,
tive de dar meia-volta,
entre sopapos e chutes.
Hoje, humilhado e ofendido,
venho rogar, compungido,
debruçando-me em teu colo,
que também não me refutes.
Toca aqui no meu cabelo,
faze que eu durma mais cedo,
depois que acaba o brinquedo,
depois que a luz se apagar. –
E, quando eu estiver carente,
como se eu fosse um doente
e tu fosses a enfermeira,
canta para eu não chorar.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Canção do investigador
para orkuteiros
Se não vais com a minha cara
e não concordas comigo,
se nula atenção me dás
e queres me ver por trás,
fica atento, meu amigo:
logo, logo eu te investigo!
Se dizes que estou por fora
ou que uso método antigo
e que ao entrar num debate
pareço um porco no abate,
outra não dá, meu amigo:
logo, logo eu te investigo!
Se à minha sábia opinião
respondes só: “Nem te ligo!”,
e, encristado como um galo,
pisas assim no meu calo,
eis o meu aviso, amigo:
logo, logo eu te investigo!
Se pensas que a minha altura
não alcança o teu umbigo
e então, com jeito estouvado,
me tratas como um coitado,
abre o olho, meu amigo:
logo, logo eu te investigo!
Se não vais com a minha cara
e não concordas comigo,
se nula atenção me dás
e queres me ver por trás,
fica atento, meu amigo:
logo, logo eu te investigo!
Se dizes que estou por fora
ou que uso método antigo
e que ao entrar num debate
pareço um porco no abate,
outra não dá, meu amigo:
logo, logo eu te investigo!
Se à minha sábia opinião
respondes só: “Nem te ligo!”,
e, encristado como um galo,
pisas assim no meu calo,
eis o meu aviso, amigo:
logo, logo eu te investigo!
Se pensas que a minha altura
não alcança o teu umbigo
e então, com jeito estouvado,
me tratas como um coitado,
abre o olho, meu amigo:
logo, logo eu te investigo!
Ali onde tudo fracassa
Críticos de poesia me discutem,
severamente, nesta vasta Rede.
Querem matar em mim a sua sede
de alguma coisa que mal repercutem.
Devo acaso esperar que me refutem?
Devo fingir que é neles que se mede
minha vida eletrônica – um suede
que, depois de rasgarem, mal deglutem?
Ai! Como é fraca a rima! E nem me resta
bater contra uma quina a minha testa,
já de si tão quebrada de a bater.
(Talvez pedindo vênia a esses senhores,
ou tentando escrever versos melhores –
ou ao menos fingindo compreender...?)
severamente, nesta vasta Rede.
Querem matar em mim a sua sede
de alguma coisa que mal repercutem.
Devo acaso esperar que me refutem?
Devo fingir que é neles que se mede
minha vida eletrônica – um suede
que, depois de rasgarem, mal deglutem?
Ai! Como é fraca a rima! E nem me resta
bater contra uma quina a minha testa,
já de si tão quebrada de a bater.
(Talvez pedindo vênia a esses senhores,
ou tentando escrever versos melhores –
ou ao menos fingindo compreender...?)
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
E se...?
para orkuteiros
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer...
(Álvaro de Campos)
E se eu não for poeta, o que acontece
neste canto da Rede, aonde cheguei
e, encontrando acolhida, me alojei,
como um rícino, um cacto que floresce?
E se eu não for aquilo que aparece
no meu perfil minguado, que ilustrei
com este bonequinho, que nem sei
por que razão comigo se parece?
Ou – pior – se este fantasma que eu exibo,
sem passar escritura nem recibo,
não for aquele que vos fala aqui,
mas somente uma sombra, um pensamento;
e eu sequer for eu mesmo, mas um vento
que se pergunta: “E se... E se... E se...”?
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer...
(Álvaro de Campos)
E se eu não for poeta, o que acontece
neste canto da Rede, aonde cheguei
e, encontrando acolhida, me alojei,
como um rícino, um cacto que floresce?
E se eu não for aquilo que aparece
no meu perfil minguado, que ilustrei
com este bonequinho, que nem sei
por que razão comigo se parece?
Ou – pior – se este fantasma que eu exibo,
sem passar escritura nem recibo,
não for aquele que vos fala aqui,
mas somente uma sombra, um pensamento;
e eu sequer for eu mesmo, mas um vento
que se pergunta: “E se... E se... E se...”?
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Resposta dos profissionais do golpe
ao soneto "Derruba o presidente em prestações"
Nunca dês teu dinheiro a pés-rapados,
que, para derrubar o presidente,
fazem rifas, “vaquinhas” e correntes,
provando que são vis e esfomeados.
Montam saites na rede – esmolambados –
onde pedem, com jeito penitente,
que invistas neles, pura e simplesmente,
sem garantia alguma, teus trocados!
Se não queres, porém, desperdiçar
teu dinheiro, mandando-o passear
em bolsos duvidosos e bornais,
dá-o aos que fazem disso uma carreira
e entrega-o apenas aos profissionais,
que oferecem serviço de primeira.
Nunca dês teu dinheiro a pés-rapados,
que, para derrubar o presidente,
fazem rifas, “vaquinhas” e correntes,
provando que são vis e esfomeados.
Montam saites na rede – esmolambados –
onde pedem, com jeito penitente,
que invistas neles, pura e simplesmente,
sem garantia alguma, teus trocados!
Se não queres, porém, desperdiçar
teu dinheiro, mandando-o passear
em bolsos duvidosos e bornais,
dá-o aos que fazem disso uma carreira
e entrega-o apenas aos profissionais,
que oferecem serviço de primeira.
Derruba o presidente em prestações
Para tanto, está sendo criado o movimento FORÇA-TAREFA DE RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA para mobilizar e organizar os patriotas e levá-los a participar da restauração política e moral do Brasil. (...) [Como fazer] 3. Captação de recursos apenas necessários para produção e difusão de material informativo e de literatura específica. (Lido na Internet)
Derruba o presidente em prestações,
caso não possas custeá-lo à vista.
E nem precisas ser muito ativista.
Basta observar as nossas condições.
Para quem tem um olho direitista,
existem mil ofertas, mil opções.
E, aproveitando bem as promoções,
logo serás um bom “foralulista”.
E não precisas dar entrada alguma,
pois também aceitamos pré-datados,
que, caso o presidente morra, ou suma,
serão após três meses descontados. –
Só não podemos mesmo é pendurar.
Vai que o negócio falhe ou dê azar!...
Derruba o presidente em prestações,
caso não possas custeá-lo à vista.
E nem precisas ser muito ativista.
Basta observar as nossas condições.
Para quem tem um olho direitista,
existem mil ofertas, mil opções.
E, aproveitando bem as promoções,
logo serás um bom “foralulista”.
E não precisas dar entrada alguma,
pois também aceitamos pré-datados,
que, caso o presidente morra, ou suma,
serão após três meses descontados. –
Só não podemos mesmo é pendurar.
Vai que o negócio falhe ou dê azar!...
domingo, 10 de fevereiro de 2008
O Conde passarinho
a certa personagem do Orkut
Era um Conde qualquer, um condezinho
que ensinava no Orkut, como quem
ensina uma doutrina de ninguém
ao seu irmão menor, ao seu vizinho.
Vivia de comer um passarinho,
pois não tinha de seu nenhum vintém,
mas, encrespado, defendia bem
o grão-capitalista e seu toicinho.
Andava, como um santo, a propagar
uma espécie de poeira ou evangelho
desde a terra deserta ao vasto mar.
Em cada encruzilhada erguia o relho,
dizendo à dura rocha: “Vem e escuta!”,
e ao vento frio: “Ó vento, me refuta!”
Era um Conde qualquer, um condezinho
que ensinava no Orkut, como quem
ensina uma doutrina de ninguém
ao seu irmão menor, ao seu vizinho.
Vivia de comer um passarinho,
pois não tinha de seu nenhum vintém,
mas, encrespado, defendia bem
o grão-capitalista e seu toicinho.
Andava, como um santo, a propagar
uma espécie de poeira ou evangelho
desde a terra deserta ao vasto mar.
Em cada encruzilhada erguia o relho,
dizendo à dura rocha: “Vem e escuta!”,
e ao vento frio: “Ó vento, me refuta!”
Terceiro soneto de mágoa
Pode ser uma boa solução,
para os que levam mágoas incuráveis,
desfazer-se em risadas impagáveis,
conforme seja a verve do histrião.
Se este conta, torcendo a encenação
e salientando os tiques mais palpáveis,
anedotas e piadas memoráveis,
quem garante que não se curarão?
Entretanto convém que não resistam
ao arrasto da farsa e nela invistam
uma parcela do seu próprio humor;
pois a comédia é feito coletivo
e necessita, para ter motivo,
que muitas mãos lhe sirvam de motor.
para os que levam mágoas incuráveis,
desfazer-se em risadas impagáveis,
conforme seja a verve do histrião.
Se este conta, torcendo a encenação
e salientando os tiques mais palpáveis,
anedotas e piadas memoráveis,
quem garante que não se curarão?
Entretanto convém que não resistam
ao arrasto da farsa e nela invistam
uma parcela do seu próprio humor;
pois a comédia é feito coletivo
e necessita, para ter motivo,
que muitas mãos lhe sirvam de motor.
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Outro soneto de mágoa
Para sanar a dor da tua mágoa,
para curar teu negro coração,
não aconselho nem lavar com água,
não recomendo escova nem sabão.
Aconselho repouso, esquecimento,
tirar férias do próprio desengano
ou, mesmo, se é demais o teu tormento,
suspender tudo até o próximo ano.
E, se, entanto, apesar do teu cuidado,
não obtiveres cura nem alívio,
te sugiro mudar para outro estado –
te sugiro mudar teu próprio nome.
Pois, para o grande mal que te consome,
não há melhor remédio do que o oblívio.
para curar teu negro coração,
não aconselho nem lavar com água,
não recomendo escova nem sabão.
Aconselho repouso, esquecimento,
tirar férias do próprio desengano
ou, mesmo, se é demais o teu tormento,
suspender tudo até o próximo ano.
E, se, entanto, apesar do teu cuidado,
não obtiveres cura nem alívio,
te sugiro mudar para outro estado –
te sugiro mudar teu próprio nome.
Pois, para o grande mal que te consome,
não há melhor remédio do que o oblívio.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Explicação
aos meus amigos do Orkut
Antes de tudo, sou um bom sujeito,
que me esforço, conforme a sorte o dê,
para deixar o tolo satisfeito
e contentar o sábio que me lê.
Pago impostos, segundo a lei o exija,
e no trânsito sou bom condutor.
Nunca torço uma norma a meu favor,
e não há regra com que eu não transija.
Se me finjo de poeta, é só por ócio,
pois nunca alimentei a veleidade
de conquistar, com tão pífio negócio,
um posto principal na eternidade.
Meu linguajar é médio, pois me educo
na tradição do Cunha e do Cegalla.
Quando me pedem para recitá-la,
sou pontual no exercício, como um cuco.
Não tendo, assim, com tal literatura,
mais do que a pretensão de divertir
a quem me reconhece ou só me atura,
sem me pedir silêncio ou me excluir,
que outra coisa me cumpre pretender,
comparecendo aqui, nestes remansos,
do que servir ao Riso e merecer
a glória que convém aos doidos mansos?
Antes de tudo, sou um bom sujeito,
que me esforço, conforme a sorte o dê,
para deixar o tolo satisfeito
e contentar o sábio que me lê.
Pago impostos, segundo a lei o exija,
e no trânsito sou bom condutor.
Nunca torço uma norma a meu favor,
e não há regra com que eu não transija.
Se me finjo de poeta, é só por ócio,
pois nunca alimentei a veleidade
de conquistar, com tão pífio negócio,
um posto principal na eternidade.
Meu linguajar é médio, pois me educo
na tradição do Cunha e do Cegalla.
Quando me pedem para recitá-la,
sou pontual no exercício, como um cuco.
Não tendo, assim, com tal literatura,
mais do que a pretensão de divertir
a quem me reconhece ou só me atura,
sem me pedir silêncio ou me excluir,
que outra coisa me cumpre pretender,
comparecendo aqui, nestes remansos,
do que servir ao Riso e merecer
a glória que convém aos doidos mansos?
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
O refutador amoroso
aos refutadores do Orkut
Correste atrás de uma estrela,
e entanto te perdoei.
Com jeito leve e grevista,
te declaraste petista,
e eu nunca te refutei.
No fogo da passeata,
não me chamaste de rei.
Disseste apenas: "Aguarda,
que a revolução não tarda!"
E eu nunca te refutei.
Von Mises nada te disse,
e Marx eu não te ensinei.
Mesmo tu sendo de esquerda,
e eu preferindo Lacerda,
eu nunca te refutei.
(Não leste um autor sequer
daqueles que te indiquei.
Ficaste só na promessa,
dizendo: “Não tenho pressa!”
E eu nunca te refutei.)
Sendo senhora do mundo
(conforme te proclamei),
vendeste o mundo a um bandido,
só porque era do partido,
e eu nunca te refutei.
Agora que estás velhinha,
com cara de já nem sei,
não adianta que chores
e de joelhos implores –
pois eu te refutarei!
Correste atrás de uma estrela,
e entanto te perdoei.
Com jeito leve e grevista,
te declaraste petista,
e eu nunca te refutei.
No fogo da passeata,
não me chamaste de rei.
Disseste apenas: "Aguarda,
que a revolução não tarda!"
E eu nunca te refutei.
Von Mises nada te disse,
e Marx eu não te ensinei.
Mesmo tu sendo de esquerda,
e eu preferindo Lacerda,
eu nunca te refutei.
(Não leste um autor sequer
daqueles que te indiquei.
Ficaste só na promessa,
dizendo: “Não tenho pressa!”
E eu nunca te refutei.)
Sendo senhora do mundo
(conforme te proclamei),
vendeste o mundo a um bandido,
só porque era do partido,
e eu nunca te refutei.
Agora que estás velhinha,
com cara de já nem sei,
não adianta que chores
e de joelhos implores –
pois eu te refutarei!
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
O sonho
Tive um dia (acreditem) este estranho
sonho em que estranhas coisas se passavam:
os gênios-magarefes me cortavam,
mas em partes erradas, lanho a lanho.
Por algum boi ou porco me tomavam,
sem de fato entender o meu tamanho;
confundiam picanha com langanho
e o filé como tripa interpretavam.
Como eu não despertasse, presenciei
até o fim a obscura acrobacia,
cujo real sentido não captei:
que, depois desse feito extraordinário,
iam vender-me a preço de usurário
no pior açougue lá da freguesia.
sonho em que estranhas coisas se passavam:
os gênios-magarefes me cortavam,
mas em partes erradas, lanho a lanho.
Por algum boi ou porco me tomavam,
sem de fato entender o meu tamanho;
confundiam picanha com langanho
e o filé como tripa interpretavam.
Como eu não despertasse, presenciei
até o fim a obscura acrobacia,
cujo real sentido não captei:
que, depois desse feito extraordinário,
iam vender-me a preço de usurário
no pior açougue lá da freguesia.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Soneto aos magoados do Orkut
para orkuteiros
Os magoados do Orkut vão à luta,
pois já estão cansados de sofrer.
Querem revanche, querem resolver
essa espécie de sombra que os enluta.
Agora estão dispostos à disputa,
que consiste, conforme fazem crer,
em levar um debate a se perder
num xingatório franco, sem permuta.
Se por acaso pisam nos seus calos,
que crescem nos seus pés como melões,
achando graça nisso, em provocá-los,
com os miolos a ferver, feito torresmos,
multiplicam-se em fakes, aos milhões,
e passam a brigar consigo mesmos!
Os magoados do Orkut vão à luta,
pois já estão cansados de sofrer.
Querem revanche, querem resolver
essa espécie de sombra que os enluta.
Agora estão dispostos à disputa,
que consiste, conforme fazem crer,
em levar um debate a se perder
num xingatório franco, sem permuta.
Se por acaso pisam nos seus calos,
que crescem nos seus pés como melões,
achando graça nisso, em provocá-los,
com os miolos a ferver, feito torresmos,
multiplicam-se em fakes, aos milhões,
e passam a brigar consigo mesmos!
Armas e lei
Enquanto nos EUA as crianças podem aprender a se defender e a utilizar corretamente uma arma, aqui nem os adultos têm esse direito... Enquanto nos EUA os índices de criminalidade vêm caindo historicamente, aqui só fazem subir... E ainda tem idiota que acha que impedindo as pessoas de se defender vai diminuir a criminalidade... (Lido no Orkut)
Ensina o filho teu, que mal saiu do ninho,
a usar um trinta-e-oito, enquanto não for tarde.
Mas faze-o com cuidado e sem qualquer alarde,
para que a esquerda não comece o burburinho.
A fim de que ele não se torne um coitadinho
e frente ao mundo mau que o quer vencer se guarde,
dá-lhe um Colt, um fuzil, sem medo e sem retarde,
que ele há de descobrir o seu próprio caminho.
Mas, se ele contra ti por acaso se volte
(que desse modo o armaste, assim, por precaução),
vendo em ti o agressor que o incite e que o revolte,
não percas teu juízo ou teu bom coração,
porém recorre à velha lei, que sempre ampara,
que é onde tudo finda e é onde tudo pára.
Ensina o filho teu, que mal saiu do ninho,
a usar um trinta-e-oito, enquanto não for tarde.
Mas faze-o com cuidado e sem qualquer alarde,
para que a esquerda não comece o burburinho.
A fim de que ele não se torne um coitadinho
e frente ao mundo mau que o quer vencer se guarde,
dá-lhe um Colt, um fuzil, sem medo e sem retarde,
que ele há de descobrir o seu próprio caminho.
Mas, se ele contra ti por acaso se volte
(que desse modo o armaste, assim, por precaução),
vendo em ti o agressor que o incite e que o revolte,
não percas teu juízo ou teu bom coração,
porém recorre à velha lei, que sempre ampara,
que é onde tudo finda e é onde tudo pára.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Necrológio dos magoados do Orkut
d'après Drummond
Os magoados do Orkut
estão desfechando tiros no cérebro.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
Os adversários torcem-se de riso.
Oh quanta matéria para os tópicos.
Magoados e decepcionados,
escreveram mensagens explicativas,
tomaram todas as providências
para a risota dos adversários.
Pum pum pum adeus, enjoados.
Eu vou, ficais vós, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
Os técnicos do Google estão fazendo a análise
dos magoados que se descompassaram.
Que grandes opiniões eles possuíam!
Vísceras imensas, tripas argumentativas
e um estômago cheio de informações...
Agora vamos para a lixeira
levar o corpo dos magoados
encaixotados competentemente
(opiniões de primeira e de segunda classe).
Os magoados seguem magoados,
sem coração, tripas, sem vontade.
Única fortuna, os seus apartes de ouro
não serão incorporados à Wikipédia
e cobertos de excremento perderão o brilho,
enquanto os adversários dançarão um samba
leve, saltitante, sobre a memória deles.
Os magoados do Orkut
estão desfechando tiros no cérebro.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
Os adversários torcem-se de riso.
Oh quanta matéria para os tópicos.
Magoados e decepcionados,
escreveram mensagens explicativas,
tomaram todas as providências
para a risota dos adversários.
Pum pum pum adeus, enjoados.
Eu vou, ficais vós, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
Os técnicos do Google estão fazendo a análise
dos magoados que se descompassaram.
Que grandes opiniões eles possuíam!
Vísceras imensas, tripas argumentativas
e um estômago cheio de informações...
Agora vamos para a lixeira
levar o corpo dos magoados
encaixotados competentemente
(opiniões de primeira e de segunda classe).
Os magoados seguem magoados,
sem coração, tripas, sem vontade.
Única fortuna, os seus apartes de ouro
não serão incorporados à Wikipédia
e cobertos de excremento perderão o brilho,
enquanto os adversários dançarão um samba
leve, saltitante, sobre a memória deles.
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