domingo, 11 de maio de 2008

Demanda

Porque no mundo mengou a verdade...” (Airas Nunes, trovador compostelano)

I

Porque no mundo minguou a verdade,
tive a idéia de um dia a ir buscar
e saí pela Rede a perguntar,
ouvindo sempre: “Sentirás saudade
dessa tal coisa que vieste a perder,
mas nós não a podemos devolver!”

Então saltei a um site de Internet
em cujo sóbrio frontispício li:
“Com o saber a raiva não se mete!
Mas o que buscas nunca esteve aqui,
nem sabemos se um dia vai estar.
E temos mais com que nos ocupar.”

Fui ao Orkut, onde a conversa fluía,
e inquiri, para ouvir, com desengano,
que de lá já fugira há mais de um ano
para um rincão que ninguém conhecia,
nem mesmo o grão Guru, cujo louvor
os alunos compunham com amor.

Finalmente, cansado desse enigma,
uma idéia em meu cérebro brilhou:
fui ler o Thomas Kuhn, que me ensinou
que era tudo questão de paradigma.
Mudei meu paradigma. Saí da bruma.
Hoje sei que não há verdade alguma.


II

Porque do mundo fugiu a verdade,
aconteceu-me um dia ir procurá-la,
e entrei na Rede como numa sala
onde disseram: “Quanta ingenuidade!
A coisa que ora estás a pretender
nem o bom Deus te pode oferecer!”

Dali pulei a um site de Internet
em cujo frontispício estava escrito:
“Com o saber a maldade não se mete!
Mas hás de percorrer todo o infinito,
antes que possas a verdade achar.
Assim, filho, o melhor é descansar!”

No amplo Orkut, onde o papo transcorria,
sem iludir ninguém quanto ao final,
escutei que de lá fugira, tal
como um coelho que em seu covil se enfia,
e até mesmo o grão Chefe do terreiro
nada sabia do seu paradeiro.

Até que, enfim, cansado dessa esgrima
obscura em que meu cérebro atolou,
fui ler o Thomas Kuhn, que me levou
a pensar que eu errara o paradigma.
Mudei o paradigma. E agora sei
que a verdade passou, mas eu fiquei.


III

Porque o mundo perdeu toda a verdade,
tomei a peito o intuito de a encontrar
e corri pela Rede, a perguntar
se a tinham escondido por maldade.
Disseram-me: “A razão da tua empresa
talvez nem tu a saibas com certeza!”

Entrei então num site de Internet
em cuja frontaria se gravara:
“Com o saber o engodo não se mete!
Mas a esperança de a encontrar, tão cara,
pode ser que não passe de delírio.
Por que não abrevias teu martírio?”

No Orkut, onde a conversa ferventava,
sem qualquer perspectiva de final,
ouvi que ela brincava no quintal,
mas que pulara o muro e longe andava,
tão longe que nem mesmo o grande Audaz
tivera paciência de ir atrás.

Por fim, chegando à borda desse origma,
um anjo pela espádua me cingiu
e a ler o Thomas Kuhn me conduziu,
levando-me a mudar meu paradigma.
Mudei-o finalmente. E agora vejo
que a verdade está além do meu desejo.


IV

Porque faltou verdade ao vasto mundo,
concluí que me cumpria descobri-la
e a farejei na Rede, como um fila,
até que me disseram: “Vagabundo
pareces ser, pois tens tempo de sobra
para desperdiçar com uma tal obra!”

Dei com o nariz num site de Internet
em cujo frontispício pude ler:
“O saber em patranhas não se mete!
Mas, amigo, a esperança de a colher
aqui, por estas bandas, é quimera.
E antes de ti mais de um morreu na espera!”

No Orkut, onde o debate era fervente,
saltei de déu em déu, qual canguru,
mas ouvi que a verdade era um tabu
ou talvez uma lenda inconseqüente.
E mais: que dela tinha desistido
até mesmo o grão Sábio, destemido.

Já sem qualquer confiança ou auto-estima,
vi um facho na noite se acender
Fui ler o Thomas Kuhn, que me fez ver
que o certo era mudar meu paradigma.
Mudei-o. E agora sou de opinião
que a verdade é um assunto de ocasião.


V

Porque a verdade saiu de fininho
do nosso mundo, decidi buscá-la
e saí pela Rede, a demandá-la,
porém ouvia: “Reza a São Longuinho.
Quem sabe ele te ajude a descobrir
essa coisa que vieste nos pedir!”

Deparei-me com um site de Internet
que trazia, na entrada, em letras grandes:
“Com o saber a fúria não se mete!
Mas ouve, neófito: por mais que andes,
por mais que corras o planeta inteiro,
não acharás o fim do teu roteiro.”

No Orkut, onde era ardente a discussão,
bati de porta em porta, qual pedinte,
mas escutava sempre, a dez por vinte,
rirem da minha pobre indagação.
E mesmo o Mestre, simulando tosse,
julgou que doido ou meliante eu fosse.

Já cansado daquela pantomima,
uma última fagulha em mim brilhou.
Fui ler o Thomas Kuhn, que me explicou
que havia engano no meu paradigma.
Mudei-o. E agora vejo que a verdade
é mania que passa com a idade.


VI

Porque a verdade dera de fugir
deste mundo, agarrá-la eu quis de novo
e na Rede a busquei (cabelo em ovo);
mas sempre ouvia: “Ó tu, que vens pedir
o que a ti nunca esteve destinado,
por que não largas mão, desassisado?”

Fui em frente e encontrei, nesta Internet,
um site circunspecto que dizia:
“Bobo de quem com o saber se mete!
Mas o que buscas, neste fim de dia,
ai!, não sabemos onde foi parar,
e perdes o teu tempo a procurar!”

Lá no Orkut, onde o papo era renhido,
rolei na correnteza, qual barquinho;
e ouvia sempre a voz de um passarinho
cantar que o fogo a tinha consumido
e que nem o Sisudo, alto e valente,
tinha dela notícia pertinente.

Descrente já da vida e do querigma,
vi no fundo do abismo arder um facho.
Fui ler o Thomas Kuhn, que com despacho
me fez saltar a um novo paradigma.
Saltei. E agora vejo muito certo
que a verdade é miragem no deserto.


VII

Porque alguém dera cabo da verdade
neste mundo, pensei: “Pois não me escapa!”
E vaguei pela Rede sem um mapa,
ouvindo sempre a voz: “Quanta ansiedade!
Se fosses mais arguto, entenderias
que a verdade acabou, e já faz dias.”

Teimoso, pesquisando na Internet,
encontrei certo site em que era dito:
“O ódio com a sabença não se mete!
Mas o que aqui procuras, ó bendito,
como um sonho passou, conforme ouvimos,
tão breve que sequer nos despedimos.”

No Orkut, onde o debate prometia,
de soleira em soleira me arrastei,
e de que nunca a viram me informei,
com tristeza e outonal melancolia;
e soube que o Sabido, com desdém,
já desistira dela ele também.

Foi então que, já próximo do sigma
(tendo iniciado em alfa), dei de cara
com o Thomas Kuhn, que não me desampara
e que me fez mudar de paradigma.
Mudei o meu. E agora só me resta
entender que a verdade me detesta.


VIII

Porque no mundo havia se acabado
a verdade, gritei: “Isto é comigo!”
E vaguei pela Rede, qual mendigo,
sempre escutando: “Ó pobre! Ó deserdado!
Isso que vens pedir é lenda, mito.
Vai cuidar do teu cão, do periquito.”

Altivo, entrei num site de Internet,
cuja porta exibia este bordão:
“Com o sábio o mentiroso não se mete!
Mas o que buscas, trêfego varão,
é mais duro de achar que, num celeiro,
uma agulha no meio do palheiro.”

No vasto Orkut, onde a conversa ardia,
cheia de ânimo e urgência, compreendi
que a verdade jamais esteve ali,
conforme em toda parte se dizia;
e que dela sequer o mais Esperto
tinha uma pista ou um indício certo.

Cansado já daquela pantomima,
pensei em desistir, mas dei a sorte
de ler o Thomas Kuhn, que por esporte
me aconselhou mudar meu paradigma.
Mudei-o. E agora sei, mais que ninguém,
que a verdade sem mim vai muito bem.

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